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domingo, 23 de novembro de 2014

CARTA AOS PAIS SOBRE A RAIVA DOS FILHOS

CARTA AOS PAIS SOBRE A RAIVA DOS FILHOS

«Às vezes não sabemos como havemos de lidar com a nossa filha… basta dizermos um “não” e começa a insultar-nos, aos berros! No outro dia ficámos preocupados porque quando lhe dissemos que não podia ver a telenovela e tinha que ir dormir desatou aos pontapés e murros nos móveis… ela é muito agressiva…»
Pai e Mãe, três coisas que eu vos quero dizer sobre os meus acessos de raiva:
Ao contrário do que vocês possam pensar, aqueles momentos em que eu me enervo e grito convosco, em que eu me passo e vos chamo nomes, ou em que eu começo aos murros e pontapés quando vocês não me dão qualquer coisa que eu queria muito naquele momento, não são culpa vossa.
Também não são culpa minha.
Na realidade não são culpa de ninguém até porque a culpa é um nome que só traz infelicidade porque serve para castigar ou para poder explicar qualquer coisa que não controlamos. Quando nós não controlamos qualquer coisa sentimos que estamos a falhar.
Pelo menos é isto que eu sinto. Vocês sentiram isso quando tinham a minha idade?
A primeira coisa que vos queria dizer é que quando isso acontece não tem a ver com qualquer coisa que eu sou. Eu não sou uma criança má, agressiva ou violenta. Não sou nada disso porque não tem a ver com o “ser” mas com o “estar”. Nesses momentos eu estou aflita, sinto-me perdida e não consigo controlar a minha energia. É quase como se o meu corpo me sugerisse que a frustração é um lugar muito perigoso, uma espécie de poço sem fundo porque não sei lidar com as emoções negativas. Não tenho de mim uma ideia segura.
O problema não é vocês não me darem o que eu quero. O problema é que a frustração que eu sinto nessas alturas é um poço sem fundo, uma espécie de uma picada forte num músculo que não sabe suportar, só sabe reagir.
A segunda coisa que eu vos queria dizer é que, a primeira coisa a fazer nesses momentos é ajudar-me a lidar com essa energia.
Há várias coisas que vocês podem fazer comigo que me ajudam a ter a sensação que não vou cair num poço sem fundo.
Podem, por exemplo abraçar-me com força enquanto me dizem, com voz calma e decidida que é temporário, já vai passar. Quando eu sei que vai passar, passa mais rápido. Se por acaso não vos apetecer abraçar-me, porque também estão zangados ou frustrados com qualquer coisa, ajudem-me a soltar a energia cá para fora, sem que isso me faça mal.
Podem fazer uma corrida comigo, fazer um concurso de saltos no mesmo lugar para ver quem dá mais em menos tempo, ou até mesmo fazer o braço de ferro comigo para ver quem ganha.
Garanto-vos que, mais tarde ou mais cedo vamos estar a olhar uns para os outros a sorrir de alívio, por termos sabido “não entrar no poço”!
A terceira coisa, talvez aquela que é mais importante para o meu futuro, é que vocês me ensinem qualquer coisa acerca da raiva ou da frustração.
Ensinem-me a identificá-las, saber quando vêm e de que forma. Podemos arranjar uma palavra ou um código que vocês me dizem quando sentem que eu estou a ter aquela energia e colocamos em prática os exercícios que já vos expliquei. Assim eu depois também posso dizer-vos a palavra quando precisar de ajuda para lidar com a raiva ou com a frustração. Para isso talvez seja melhor vocês lembrarem-se dos momentos em que se sentiram zangados ou frustrados e pensarem como reagiram. Se calhar sentiram, como eu, que ficaram mais frustrados quando não vos compreendiam nem faziam um esforço para vos compreender, ou quando vos diziam que não simplesmente “porque não!”.
Pois deixem-me que vos explique uma coisa muito importante: para que uma criança fique descansada com um simples “porque não!” é necessário existirem três aspetos fundamentais na relação com os pais, que eu chamo os 3 “Cês”: confiança, coerência e a clareza. Passo a explicar:
Confiança – Para poder aceitar uma regra eu preciso de confiar em vocês, que vocês não me vão abandonar se eu desrespeitar a regra, porque ainda estou a aprender e esta coisa da aprendizagem ainda demora uns aninhos. Para isso eu preciso que vocês me apoiem e incentivem, que me digam “tu vais conseguir suportar essa dor porque és um herói e nós estamos cá contigo, mesmo se falhares”.
Coerência – Para poder respeitar uma regra eu preciso de sentir que vocês a aplicam sempre da mesma forma. Por exemplo, não me podem dizer que “eu não posso jogar computador” e depois eu reparo que a regra existe quando vocês estão zangados e deixa de existir quando vocês estão contentes. Prefiro que me digam uma hora para jogar computador e que sejam fortes a cumpri-la, independentemente do vosso estado de humor. É que senão, ninguém acredita em vocês!…
Clareza – Para poder perceber uma regra eu preciso de saber as razões da aplicação da mesma e isso acontece se eu perceber que a regra me vai ajudar a satisfazer, mais tarde ou mais cedo, uma necessidade minha. Não me digam que o facto de eu cumprir a regra serve para vos deixar feliz, porque aí eu vou pensar que a regra contribui mais do que eu próprio para a vossa felicidade, e isso pode doer.
Espero, por fim, que não se zanguem por vos dizer estas coisas, mas há momentos em que os filhos também podem explicar algumas coisas aos pais. Para que os pais os entendam e possam desempenhar melhor o seu papel. A ideia não é eliminar as zangas das nossas vidas, até porque é muitas vezes zangados que conseguimos mostrar mais claramente as nossas necessidades.
A ideia é que a zanga deixe de ser um problema e passe a ser uma solução. Para sermos uma família brutal, claro!
Amo-vos muito
Filh@


                                                 

Por Francisco Gonçalves Ferreira, presidente da Casa Estrela do Mar
para Up To Lisbon Kids®

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